Blog Dois Pernods

Irmãs e Filhas - Capítulo 1

Atualizado: 14 de Mar de 2019


Existem coisas na vida que até Deus duvida. Mas Deus não duvidava de nada que viesse daquela menina. Adolescente, de quinze anos, Norma era uma peste. A menina havia repetido o ano na escola e era, da família, a pessoa mais insuportável. Moravam na mesma casa: Jacinta e Ronaldo, que eram seus pais e ela e Carmen, sua irmã mais velha, que era casada e tinha um quarto somente para ela e o marido. Norma também tinha um quarto exclusivo, já que fez porque fez até que o pai construísse um cômodo a mais na residência... Não era difícil para Norma conseguir coisas do pai, visto que a menina era, de seu Jacinto, a queridinha. Mas a verdade é que a menina era um verdadeiro inferno. E todos os dias, antes de ir à escola, era aquela pirraça:

- Você vem ou não vem, Norma?! - Já estou indo! - Mas já está em cima da hora, menina! Depressa!

- Já disse que estou indo, ora! - Ô mamãe, Norma não quer descer! Eu vou me atrasar novamente! - Mas que inferno logo cedo! Norma, desça já que eu estou mandando! - Ai, mas que tormento! Não se pode nem se arrumar sossegada nessa casa! - Deveria então se arrumar mais cedo! Não vê que sua irmã pode perder a hora? - Hora? Que hora? Alguma vez a senhora já viu a Carmen ter hora? Só tem hora para sair, mamãe... Porque para voltar... Até imagino o que ela tanto faz pela rua... Coitado do Teo... Se soubesse o peso dos chifres que carrega na cabeça... - Mamãe, olha essa menina! - Ela não trabalha, mamãe! Só a senhora, que é uma tonta, e o Teo, que é um bobo, é que acreditam nisso! Ela finge que trabalha e engana vocês! Deve ter é um amante na rua... E se vai mesmo ao escritório, deve ser para ficar se insinuando para o chefe! É uma incompetente! Nem ao menos é formada... Sei bem que tipo de serão que ela faz no escritório! - Mamãe, olha essa menina! Olha! Eu vou te dar uma surra, garota! - Eu vou lavar a sua boca com sabão, sua danada! Olha a sua idade! Falando essas coisas da sua irmã! E que história é essa de me chamar de tonta? Você me respeite, menina! Você me respeite! Só não lhe dou uma surra agora mesmo porque vai atrasar a sua irmã... Mas mais tarde a gente conversa! Não sei onde essa menina aprende essas coisas... - Na rua, né mamãe? Aonde mais? Vive na rua! Mas deixa, eu não ligo mais... Não vou mais dar a mínima para suas pirracinhas, ouviu? E para o seu governo, minha filha, eu sou casada! E muito bem casada! Meu marido me ama! Você tem é inveja de mim porque é feia e sozinha, mal amada! Vai ter que virar freira ou beata! Pra casar? Só se for com Cristo! Sim, porque que garoto se interessaria por você? De rebeldia e feiura, minha filha, nenhum garoto se agrada! E não adianta pedir nada para Santo Antônio não, ouviu? Não vai dar em nada! Você reza pra se casar e eu rezo pra você ficar solteira! Você tira o menino Jesus do colo dele e eu o ponho de volta! Você vai ficar sozinha na vida, sua pirralha! - Você me paga, Carmen! Vai ver... Me paga! - Vai, leva logo essa menina pra escola, Carmen, pelo amor de Deus! Todos os dias era o mesmo inferno. Parecia que fazia de propósito! Na escola, a menina era de poucos amigos... Tinha uma única colega mais próxima, para dizer a verdade: Sandra, que também era da pá virada! Norma tinha um caráter distorcido e, nos intervalos, no pátio, contava tudo invertido. Dizia que a irmã é que era uma praga, que Carmen é que respondia à mãe e que era sempre grosseira em casa. Dizia também que sua mãe tinha um amante, que tinha presenciado o adultério pela primeira vez e que nem mesmo seu pai sabia, coitado! Mas a verdade é que Dona Jacinta era doceira e não podia muito se ausentar de casa, pois, entre forno e fogão, passava o dia para ganhar algum trocado. E ao contrário do que dizia Norma, era fiel ao marido como uma rocha. Sua vida era o trabalho e, por este motivo, acabava não sabendo da metade do que Norma aprontava na escola, salvo os casos mais graves, como a vez que tentou afogar uma colega na cisterna que ficava nos fundos do educandário. Certo dia D. Jacinta foi chamada pela coordenadora. Sem saber do que se tratava, e com medo de perder seu tempo com pirracinhas da garota, ligou para Carmen que compareceu à hora marcada. À caminho do colégio, Carmen até já imaginava o que a pestinha tinha aprontado! Teve que pedir licença do trabalho para atender o chamado e, enfurecida com isso, já pensava: “Ela me paga... Se for besteira, me paga! Vou trazê-la pela orelha de volta pra casa!” – Chegando ao colégio, foi encaminhada à sala da psicóloga, onde foi logo informada de que o assunto era grave! - Grave? Sentou-se e tratou de ouvir todo o preparo da psicóloga... E lá pelas tantas, já mais que suficiente, Carmen resumiu espantada: - Grávida? - Está. Grávida! Não quis me dizer o nome do rapaz, mas contou-me tudo nos mínimos detalhes... Achei melhor informar a família sobre a situação para que tomem os devidos cuidados e providências. Só peço, por favor, para que sejam cautelosos, não sejam rudes nem grosseiros porque a menina está fragilizada. E depois, compreensão e delicadeza, é tudo na vida de qualquer pessoa. Abismada, Marta até sentiu pena... Afinal, Norma era muito nova! Com seria seu futuro? Nem ela, que era casada e trabalhava, tinha convicções a cerca do seu... "Imagine Norma!". Chegando em casa, após o expediente, as duas se trancaram no quarto e tiveram uma longa conversa. Carmen contou-lhe tudo o que tinha dito a psicóloga. Norma ouviu calada e, logo em seguida, caiu num pranto descontrolado. Acabou assumindo a situação em que estava para a irmã, confirmando tudo o que havia dito a psicóloga da escola. Sem querer contar o nome do rapaz, insistiu apenas para que Carmen não dissesse nada ao pai porque ela mesma queria contar. Carmen aceitou a proposta, mas insistiu para que a menina não deixasse de falar com ele sobre o assunto, já que seu estado interessante não conseguiria ser escondido de todos por muito tempo. Após a conversa, foram jantar com o restante da família e tentaram contornar a situação fingindo que nada havia acontecido. Dona Jacinta acabava de colocar a mesa quando chegaram. - Pronto, está na mesa! Seu Ronaldo puxou uma oração e, como de praxe, pedia a Deus para abençoar as duas filhas, em especial a sua caçula, Norma. "Que Deus lhe dê juízo e um futuro cheio de realizações e felicidades." Ao término da oração, dona Jacinta não fez por menos e puxou o assunto: - Ronaldo, recebi hoje um telefonema da escola de Norma. - Huumm... - Andou aprontando mais uma vez, não é, minha filha? - Não aprontei nada. - Ah, não? Então conta para nós, Carmen! O que essa SANTA fez de bom na escola? - Eu? - É sim, filha. Você não foi à escola? - Fui... - Então conta... O que essa peste andou aprontando por lá? - Nada. - Como nada? Se ligaram me pedindo para comparecer com urgência... - Ah, é que... Norma andou tirando nota baixa... - Novamente? Menina, você quer ser reprovada mais uma vez? - Deixa a menina, Jacinta... - Como deixa, Ronaldo? Já repetiu ano uma vez. Não vê o sacrifício que fazemos para pagar essa escola? - Deixa... Ela recupera, não é, minha filha? - Recupero sim, papai. - Sinceramente, Ronaldo, você defende demais essa criatura... É por isso que essa menina anda do jeito que anda! - Foram só umas notas baixas, mãe, isso é besteira... Logo ela recupera. - Eu vivia em recuperação, dona Jacinta! Mas acabei me formando. Também já repeti ano uma vez. Isso é normal. – Disse Teobaldo. - Normal não! Normal não! Isso é coisa de gente sem-vergonha! Até você está defendendo essa menina, Teobaldo? Essa menina não faz nada o dia inteiro! A única obrigação que tem é estudar, eu é que queimo a minha barriga no fogão o dia todo pra pagar a escola dessa garota... E ainda me vem com nota baixa? Não admito isso não! Nem nota baixa nem recuperação. Muito menos ser reprovada novamente! Se fizer isso, leva uma surra! - Deixa a menina, mulher! Que coisa! Pior é você que é burra... Sequer foi alfabetizada! - Papai! – Disse Carmen.


E ele reagiu dizendo à filha mais nova: - Coma em paz, minha filha, coma... Meu biju, quer salada? - Não. - Coma uma saladinha, coma?! Jacinta retirou-se magoada da mesa no mesmo instante. Quando o assunto era Norma, Ronaldo se enfurecia. Tratava a menina como uma santa e foi assim desde criança. Quando fazia suas pirracinhas, Ronaldo achava graça e interessante. Contava a todo mundo como se fosse a coisa mais linda do mundo. Isso só piorou à medida em que a menina foi crescendo, até chegar ao ponto em que Ronaldo não admitia pressioná-la sobre qualquer circunstância. Quando havia um problema mais sério, Ronaldo sempre conversava com a menina e, para variar, acabava rindo das suas afirmativas e perdoando a garota sem mais delongas. Pouco depois que Jacinta saiu da mesa, Carmen retirou-se. Das duas, Carmen era a mais ligada à Jacinta e odiava quando o pai a maltratava por causa de Norma. No quarto, Carmen conversou com a mãe que estava deitada, aos prantos, em cima da cama: - Mamãe, não fique assim... Ele não fez por mal... - Não fez por mal? Não fez por mal, Carmen? Tudo que diz respeito a essa menina seu pai me condena! Não a culpa por nada no mundo! Além de tudo, sou humilhada... Estou muito cansada! Muito cansada! Do seu pai e de Norma! - Mas a senhora não sabe que o papai é assim? Sempre foi assim com Norma, desde que ela era criança... - Mas, minha filha! Se eu pego no pé dessa menina, é para o próprio bem dessa criatura! Ela pinta o diabo comigo e seu pai não admite condená-la em hipótese alguma! E você sabe muito bem do que estou falando! É sempre assim! Sempre assim... Estou cansada! - Eu sei mamãe, eu sei... - E então, minha filha... E então... Até seu marido hoje defendeu essa garota! - Mas o Teo não fez por mal, mamãe... Realmente ele foi um mau aluno na escola. Repetiu ano não sei quantas vezes! - Mas ele não pode falar isso na mesa, Carmen! Na frente da menina... Dá mais asa a essa garota, que acaba achando tudo normal. E o meu sacrifício pra manter essa menina na escola? Cozinhando o dia inteiro pra ela tirar nota baixa e todo mundo ver como normal?! Essa menina é uma peste, mas por pouco não se acha uma santa! Ah, mas deixa só teu pai viajar... Vou dar uma surra nela até tirar sangue! Vou tirar sangue dessa garota! Vai implorar para eu parar... Vou bater nela por todas as pirraças que fez e eu não pude punir... - Não faça isso, mamãe. Não vai adiantar em nada! - Adianta! Eu fui criada assim e virei gente! - Mamãe, eu preciso lhe contar uma coisa sobre a Norma. E é grave! - Grave? - É, mas a senhora tem que me prometer que vai guardar isso em segredo. - O que foi? Já está reprovada! Ai, eu sabia... Eu sabia... - Não, não... Não é isso... Sequer tirou nota baixa na escola. - Não tirou? Então você mentiu, minha filha? - Menti, mamãe. - Mas por quê? - Porque eu não sabia o que dizer. - Eu sabia que tinha alguma coisa errada! Não iriam me chamar na escola pra falar de nota baixa! Diriam por telefone... O que foi que ela aprontou dessa vez? - Quem lhe chamou na escola foi a psicóloga. - Psicóloga? - Foi. - Mas por quê? - Pra dizer que a Norma está grávida! (Continua...) O.C. - Da Série "Casos de Família" © Copyright, 2013 Oscar Calixto - Todos os Direitos Reservados.


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