Blog Dois Pernods

Irmãs e Filhas - Capítulo 3

Atualizado: 13 de Mar de 2019


Na rua, Carmen, desesperada, encontrou o pai num beco, apontando a arma para o genro que já estava bastante machucado. Olhando para baixo, completamente cansado, ele dizia: - "... acaba logo com isso... Me mata de uma vez, eu não aguento mais." - Ao vê-los, Carmen gritou pelo pai... Aproximou-se e foi derramando: - Papai, pelo amor de tudo que é sagrado, não faça isso! Norma está mentindo. Eu sei, vi isso nos olhos dela. Está mentindo! Não foi o Teo quem a engravidou. Pelo amor de Deus, abaixe essa arma! - Foi o Teo sim, minha filha. Foi ele quem fez isto! O vagabundo acabou de me confessar. - Papai, Norma é uma peste! Só o senhor é que não sabe! - Me perdoe, minha filha. Mas este homem não merece ser seu marido... E descarregou o revolver no genro. Carmen gritou, correu, e apanhou o corpo do chão. Sentou-se entre os muros do beco e chorou abraçada ao marido morto. No dia seguinte, no velório, Carmen estava inconformada à beira do caixão. Seu pai, depois que atirou no genro, sumiu do mapa. A polícia foi informada e agora o procurava. No velório, amigos e parentes chegavam aos montes e preenchiam o vazio da grande sala. Uma senhora servia café e os doces de Dona Jacinta aos presentes. Dona Jacinta, ainda em choque, não pronunciou sequer uma palavra. Meio aos cochichos dos presentes, Norma apareceu e permaneceu encostada na porta. Numa passada rápida de olho, Carmen constatou sua presença e a fulminou com o olhar. Sem resistir, interrompeu o velório dizendo: - O que você está fazendo aqui? Ao que, cinicamente, respondeu a garota: - Vim velar o corpo do pai do meu filho. Carmen, enfurecida, andou em sua direção e segurando-a pelo braço, olhou firmemente em seus olhos e repetiu: - Você foi quem causou a morte do meu marido. Você é que é a culpada por toda essa tragédia. Saia daqui antes que eu perca a minha cabeça! Você é uma mentirosa, uma maldita descarada. E a menina, olhando-lhe nos olhos, disse baixíssimo: - Eu disse que você me pagava... Carmen descontrolou-se e expulsou a menina da sala debaixo de pancadas, acabando com a missa de corpo presente. Os convidados tentaram impedir a briga das irmãs inutilmente e o velório teve seu fim com uma grande confusão. No dia seguinte, Dona Jacinta preparava o almoço, enquanto a filha mais nova assistia TV na sala. Carmen apareceu descendo as escadas com duas malas nas mãos. Jogou-as no chão e, secamente, deu as ordens à menina: - Eu quero que você vá embora desta casa. Estão aqui as suas malas. Se você tem um pingo de vergonha nessa cara, suma e não apareça nunca mais aqui. Norma riu cinicamente e anunciou: - Minha filha, eu não vou embora desta casa! Antes do papai fugir, ele me disse que esta casa está em meu nome. Que tinha feito isto pensando no meu futuro e no futuro do meu filho. Então, se tem alguém aqui que tem que ir embora, esse alguém não sou eu... É você! Portanto, arrume você as suas malas se não quiser conviver comigo. - Mentira! Você está mentindo novamente! Dona Jacinta, ao ouvir os berros da filha mais velha, caminhou para a sala. - O que está acontecendo aqui? - Mamãe, essa víbora está dizendo que o papai passou essa casa no nome dela. - Impossível! A casa está no nome dele, sempre esteve... - Está me mandando embora. - Você não vai embora, minha filha. Essa casa é minha e do seu pai, ora! - Não é não, mamãe... – disse a menina. – É minha! E se duvidam, está aqui o documento... Papai me deu ontem. E tirou o documento do bolso entregando-o à mãe. Dona Jacinta prontamente abriu o papel e leu. De fato, a casa estava em nome da menina. Baixando o documento, indignada, Dona Jacinta proferiu abismada: - Não é possível uma coisa dessas! - É possível sim, mamãe... O papai sabe o que faz! Vocês me odeiam... Sempre me odiaram. - Eu vou matar essa menina! – partiu Carmen para cima dela. Dona Jacinta a segurou, neste momento, enquanto Carmen tentava, por fim da força, alcançar a irmã mais nova... A menina levantou-se calmamente da cadeira, arrumou o vestido e, antes de sair, disse a irmã: - Eu vou ter meu filho dentro desta casa, queira você ou não. E espero que você se comporte direito. Senão, quem vai expulsá-la daqui sou eu. E saiu... Carmen gritava e se debatia entre os braços da mãe enquanto a menina subia as escadas. Cinco dias após o acontecido, com as três vivendo sob o mesmo teto, Dona Jacinta estava na cozinha cortando frutas para uma torta, enquanto Norma permanecia na sala diante da TV ligada. Carmen permanecia trancada em seu quarto. - Mamãe, pode me trazer um copo d´água? – disse a menina. - Venha buscar, se quiser! - Mamãe, mamãe... Lembre-se que agora eu sou a dona desta casa! Dona Jacinta a fulminou com o olhar e encheu um copo com água. Quando já vinha trazendo para a menina, alguém bateu à porta. Dona Jacinta já ia atender, quando a menina disse: - Pode deixar, eu mesma abro. Ao abrir a porta, Ronaldo foi logo abraçando a filha e dizendo que sentia saudades. Dona Jacinta espantou-se e foi logo lhe questionando: - O que você está fazendo aqui, homem? Onde estava? A polícia está toda atrás de você! - Oi, minha velha! Como assim, onde estava? Mandei-lhe um recado por Norma. Não lhe entregou? - Não, papai, eu não entreguei porque aqui estão todas contra o senhor. Até queriam me expulsar de casa... - Expulsá-la de casa? - Mas isto é uma afronta! Quer dizer que você mata seu genro, sai de casa, foge da polícia e sequer me diz onde está? Ainda por cima manda recado por essa víbora? - Jacinta! Eu não quero que a culpem por nada. Essa menina é uma santa! O Teobaldo é que era um sem-vergonha, um cretino, um canalha! - É impressionante como você defende essa criatura... Essa menina é o demônio, Ronaldo! Será possível que não vê? E como é que você passa a escritura da casa no nome dela sem me consultar? Quer dizer que eu não valho nada? - Minha velha... - Minha velha é o diabo! Eu deveria entregar você à polícia e a sua filha a um sanatório... - Não estou dizendo, papai? Estão todas contra nós... - E você cale essa boca! Antes que eu lhe sente a porrada! Estou por aqui com você! Por aqui! Ouviu bem? Carmen descia as escadas de camisola e seguia em direção à cozinha quando viu o pai... Estacou no meio do caminho, olhando para ele. O silêncio ecoou no ambiente. - Papai? O pai tentou aproximar-se da filha, enternecido, mas, antes que ele conseguisse alcança-la, ela o impediu de chegar: - Fique onde está! O que esse homem está fazendo aqui, mamãe? O pai tentou novamente: - Minha filha, eu... - Xiiiii... Eu não quero ouvir mais nada! Mais nada! O senhor, papai, vale tanto quanto a sua filha. O senhor por acaso sabe o que ela me disse no velório? “Eu disse que você me pagava... Eu disse que você me pagava!” O que ela fez foi vingança... Vingança contra mim, papai! E o senhor ainda a apoia!? - Você disse mesmo isso, minha filha? – perguntando para Norma. - Não, papai, eu não disse nada. - Está mentindo... Mentindo, essa descarada! Mas o senhor acredita nela, não é papai? Sempre acreditou... Acreditou até chegar ao ponto de matar, sem dúvida alguma, o meu marido. Esse demônio sequer deve estar grávida! Olha essa barriga que não cresce! - Então vamos fazer um teste, se essa é a sua dúvida, eu faço o teste, papai! - Faz nada! Faz nada! Você diz isso porque sabe que ele não vai te levar! - disse Carmen. - Mas minha filha, sua mãe mesma foi quem a levou ao Dr. Abílio, como pode não estar grávida? - Não sei, papai, não sei... Essa menina é uma peste! Uma praga! E o exame pode ter dado errado, não pode? É tão comum um exame dar errado... - O Dr. Abílio é de confiança, Carmen... É um médico conceituado, jamais errou um exame! Por isso mesmo é que eu sempre fiz questão de que ela só fosse consultada por ele! - Isso é verdade, minha filha, mas mesmo assim, Ronaldo, eu não acredito que este filho seja do Teobaldo. Disso eu tenho certeza, ela está mentindo! - Vocês estão é perseguindo o meu Biju! Tudo porque não querem acreditar que o Teobaldo era um canalha! - Está vendo? Está vendo? O senhor a defende tanto, papai, tanto... Que eu sinto até nojo! Até penso se este filho que ela carrega, se é que carrega, não pode ser seu! - Filha! – disse Dona Jacinta. - É isso mesmo, mamãe! É isso mesmo! Eu não sei se a senhora sabe, mas o papai sempre teve amantes. Eu mesma o vi com uma dezena delas quando era criança, mas nunca lhe disse nada. Tinha medo que o papai saísse de casa. Mas hoje, eu só quero é que ele morra. Porque sinto nojo dele... Nojo!


- Filha! - Não fale assim comigo, Carmen! - Falo do jeito que eu quiser! E me dê licença, "papai"... Eu vou subir. A sua cara me causa um mal estar terrível. Fique aí com sua "filhinha querida", o seu "Biju", mas vamos ver se daqui a nove meses, dessa barriga, sai mesmo uma criança. Vamos ver, "papai"! Carmen subiu as escadas novamente e propagou-se um grande e eloquente silêncio na sala de estar. (Continua...) O.C. - Da Série "Casos de Família" © Copyright, 2013 Oscar Calixto - Todos os Direitos Reservados.


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