Blog Dois Pernods

Reencontro com Proust

Nós mesmos! Eis um problema: Nós! E, na verdade, creio que tudo esteja em nós, incluindo a solução desse problema - que somos nós. Tudo está e sempre esteve em nós: O amor, o ódio, a esperança, o infortúnio, a ternura, a compreensão, a paixão e todos os medos. Os sentimentos que mais cultivamos, tudo isso diz muito sobre quem somos."


(Narciso - Heleno Bernardi)


- Dia desses andava pela rua e pensava essas coisas por causa de algo que observei em alguém. Difícil conceber que pode-se pensar uma coisa dessas em praça pública ou dentro de um supermercado, mas eu penso... Quando fico "encucado" com algo eu penso de tudo. Principalmente nos supermercados - esquecendo de ler o rótulo e olhar a validade do produto - Aliás, tenho "pavorzinho" de rótulos... Sempre acho que são meio mentirosos.


Lembrei, ali mesmo, com um produto nas mãos, que Proust alertava sobre algo parecido com isso que pensei e lamentei não poder abrir uma porta do refrigerador e, ao invés de carne, retirar aquele livro dele naquele momento - só para fechar o assunto... Porque também tenho "pavorzinho" de coisas que não se fecham claramente em minha mente. - Da obra artística ao papo de bar, eu sempre evitei que as coisas se encerrassem em "em mim"... Acabar "em mim" é pura vaidade, puro egoísmo, já que nem eu sou "para mim" e já que todos somos sempre "para o outro". Ser "para si" num mundo tão vasto é um impropério lançado contra ele próprio. 


"Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua. Graças à arte, em vez de ver um único mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e quantos artistas originais existirem, tantos mundos teremos à nossa disposição, mais diferentes uns dos outros do que aqueles que rolam no infinito e, muitos séculos após se ter extinguido o foco do qual emanavam, chamasse ele Rembrandt ou Ver Meer, ainda nos enviam o seu raio especial." 


- Depois que cheguei, eu reencontrei "O Tempo Reencontrado" de Proust. - Disso que li e transcrevi acima, só me deixou com uma pulga atrás da orelha a palavra "original" dentro de um mundo que tem sede de "padrões" (que acho uma bobagem, claro... Mas temos que considerar que vivemos num mundo exatamente assim). Para mim, um artista deve ser original... - Artista que copia não é artista, é máquina! - E certos "padrões" inibem a originalidade de qualquer coisa - o que é uma lástima!



De tudo, voltando ao nosso problema, devo concordar com o Proust, que me arrepia os pêlos com quando diz: "Somente pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que um outro vê desse universo que não é o mesmo que o nosso e cujas paisagens permaneceriam tão desconhecidas para nós quanto as que podem existir na lua."  - And this is it, guys!   


Dadas as circunstâncias atuais, fica fácil, diante dessa assertiva, compreender porque tanta revolta e incompreensão a nossa volta... Porque tantos conflitos, tantos insultos, tantos discursos febris, nocivos, malévolos e sem sentido ou simplesmente "meramente confusos"... - Falta isso... E não só isso... Mas, no fundo, falta isso: Falta que saiamos de nós! - Mas tenha cuidado para não se enganar sobre o assunto... Porque "sair de si" é olhar o todo friamente, sem querer "defender" o seu próprio mundo. 


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#Vida #Livros #Imperfeito #Disfarces

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