Tempos Delicados
- Oscar Calixto
- há 8 minutos
- 2 min de leitura

Há uma delicadeza que não disputa espaço com o ruído. Ela habita nos silêncios, no foco, nos gestos mínimos, nas ideias que ainda não encontraram um caminho, um lugar.
É dela que nasce a sensibilidade; essa rara capacidade de perceber o que a pressa não vê e de ouvir aquilo que o mundo insiste em interromper.
Criar é aceitar que tudo é um empréstimo:
As histórias, as imagens, os versos e os personagens chegam até nós como visitantes temporários. Somos apenas guardiões de algo que pede passagem. A criação é, portanto, travessia.
Vivemos tempos estranhos, sombrios, nefastos, profanos. São tempos do engano: Um tempo em que a profundidade precisa disputar atenção com a velocidade e em que a reflexão é muitas vezes vencida pela opinião instantânea ou pelo grito da moda.
A superficialidade deixou de ser um acidente para se tornar método - e quanta viagem do ego há nisso tudo. Ainda assim, criar continua sendo um ato de coragem.
Insistir na sensibilidade é, portanto, desafiar a indiferença; é acreditar que há valor no que não pode ser medido por números, curtidas ou tendências; é oferecer complexidade a um mundo que idolatra respostas fáceis; é cultivar a delicadeza em um terreno cada vez mais pobre e endurecido.
Talvez a arte exista também para isso: para lembrar que nem tudo precisa ser superfície e que a beleza ainda pode surgir onde a atenção insiste em dispersar.
Enquanto houver alguém disposto a sentir ampla e profundanente, o novo continuará encontrando um caminho ou um espaço.
E a criação, esse breve e precioso empréstimo da existência, seguirá nos lembrando que a verdadeira revolução pode ser, simplesmente, "não perder a capacidade de se sensibilizar".





